Em pouco mais de um mês de campanha eleitoral em São Paulo, ao menos 23 mulheres foram mortas em casos de feminicídio ou violência letal de gênero no estado, uma média de uma vítima a cada 35 horas, ou quase cinco por semana.
O levantamento cobre o período de 16 de agosto, data de início oficial da campanha, até 18 de setembro (domingo). Os casos se espalham por toda a extensão do estado: da capital ao litoral, passando pelo interior e pela Grande São Paulo, nenhuma região ficou de fora.
Facadas, tiros, espancamento, estrangulamento e até fogo estão entre os métodos registrados nos boletins de ocorrência. Na maioria dos casos, o principal suspeito é companheiro, ex-companheiro ou marido da vítima. Ao menos duas mulheres, Bianca Caroline Fernandes e Adriana Meirelles, tinham medida protetiva contra o agressor no momento em que foram mortas.
Dois casos recentes, fora da lista de 23, expõem um padrão que preocupa investigadores: mulheres ligadas às forças de segurança mortas dentro de casa por companheiros que alegaram, à própria polícia, que a vítima teria cometido suicídio, versão depois derrubada pela perícia.
Em Embu das Artes, o soldado da PM Vinícius Costa Silva, 26 anos, disse ter encontrado a esposa Larissa da Cruz Morata, 29, morta com um tiro na cabeça no banheiro de casa em 6 de setembro, alegando que ela teria se matado depois que ele comunicou a intenção de terminar o relacionamento; a Justiça decretou prisão temporária por inconsistências na versão apresentada.
Caso semelhante ocorreu meses antes com a soldada Gisele Alves Santana, encontrada morta a tiros no apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, no Brás, em 18 de fevereiro. Ele também alegou suicídio da esposa, mas laudo pericial encontrou 14 lesões no corpo dela, descartou a hipótese e apontou indícios de que ele teria tomado banho após o crime e posicionado a arma na mão da vítima para simular a cena. Ele está preso desde março, acusado de feminicídio por motivo torpe, com prisão mantida pelo STJ em 1º de setembro.
Os casos (16/08 a 18/09)
16/08 – Angelita Manoela Rodrigues, 40, esfaqueada pelo ex-companheiro na fila do açougue de um supermercado em São Paulo.
18/08 – Roxana Aleida Mallqui Susara, 28, grávida, espancada até a morte pelo companheiro na Ponte Rasa (zona leste de SP); morreu após passar por três UPAs.
19/08 – Samantha Afra Ribeiro Dias, 36, morta a tiros em Capivari; corpo encontrado sem um dos braços.
20/08 – Marcela Domingos dos Santos, 41, esfaqueada em chácara na zona rural entre Paraguaçu Paulista e Lutécia; ex-companheiro é o principal suspeito e está foragido.
20/08 – Agatha Cristina Fonseca, 30, encontrada morta no Tatuapé, com sinais de violência.
24/08 – Patrícia Camila de Souza, morta com tiro no peito pelo companheiro, na zona leste de SP.
27/08 – Divina Daniela Carlos, 34, morta a facadas em chácara entre Rio das Pedras e Piracicaba; marido preso.
27/08 – Kayra Kamilly, 33, mulher trans, encontrada morta com sinais de violência em terreno baldio no Guarujá; caso sem prisão.
30/08 – Vanessa Batista Alves, 43, morta a facadas em Cotia; companheiro preso em flagrante.
31/08 – Ana Cláudia das Mercês Gabriel, 34, morta a tiros dentro de casa no Grajaú; já tinha denunciado agressões.
31/08 – Marcila de Souza Carvalho, 35, encontrada morta dentro de casa na zona leste de SP, com ferimento no pescoço.
02/09 – Clara Victoria, 17, atraída para uma casa no litoral e morta a facadas em Caraguatatuba.
04/09 – Cleonice Aparecida Pinheiro de Oliveira, 54, morta a facadas em Hortolândia; marido preso em flagrante.
05/09 – Talita Ramos Andrade, 35, encontrada morta a tiros em estrada rural de Artur Nogueira.
05/09 – Maria das Graças Mouzinho da Rocha, 45, morta a tiros pelo companheiro durante fuga de carro, em Salto.
06/09 – Larissa da Cruz Morata, 29, encontrada morta com tiro na cabeça em Embu das Artes; PM suspeito preso, alegou suicídio da vítima.
06/09* – Vivian Harbs, 44, encontrada com graves lesões na cabeça em área de mata em Ribeirão Preto; não resistiu.
07/09 – Micheli Antunes Rodrigues, 32, morre após quase três semanas internada; companheiro ateou fogo nela em 15/08, em Sarapuí.
09/09 – Samara Ellen da Silva, 26, esquartejada, partes jogadas no rio Guarapiranga; suspeito preso e confessou.
12/09 – Adriana Meirelles Reis da Silva, 39, esfaqueada pelo ex-companheiro em via pública em Guará; tinha medida protetiva.
13/09 – Bianca Caroline Fernandes, 21, morta por asfixia em Campinas; companheiro preso, vítima tinha medida protetiva.
17/09 – Patrícia Cristina Poncini, 55, ex-vereadora de Boituva, esfaqueada por um funcionário no local de trabalho (caso ainda sem motivação de gênero confirmada).
18/09 – Yasmin de Souza Macedo, 26, estudante de enfermagem, morta a tiros dentro de carro na zona norte de SP; ex-namorado é o principal suspeito.
* presumido – data original informada como 06/08, incompatível com a ordem cronológica da lista.
O que dizem os dados oficiais
Os números da campanha não são um desvio isolado, refletem uma tendência que os próprios dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) já vinham apontando como recorde:
- 142 mulheres foram mortas por feminicídio em São Paulo no primeiro semestre de 2026, ante 129 no mesmo período de 2025, alta de 10%.
- Só no 1º trimestre de 2026 foram 86 casos, o maior número da série histórica iniciada em 2018, alta de 41% frente ao 1º trimestre de 2025.
- Em junho de 2026, na comparação com junho de 2025, também cresceram: descumprimento de medida protetiva (+23,3%, de 1.702 para 2.099 casos), lesão corporal dolosa contra mulher (+10,5%, de 5.069 para 5.604), estupro de vulnerável (+129 casos) e perseguição/stalking (+306 casos), dados da própria SSP-SP.
A DDM Online registrou 44.718 ocorrências entre janeiro e agosto de 2026, alta de 11,8% sobre o mesmo período de 2025 (Piranot).
A rede de proteção não acompanha o ritmo
São Paulo tem cerca de 134 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), mas apenas 18 delas, cerca de 13% do total, funcionam 24 horas por dia, todos os dias da semana, incluindo finais de semana e feriados.
As demais, mais de 85%, atendem só em horário comercial, de segunda à sexta, deixando vítimas sem atendimento presencial especializado à noite e nos fins de semana, justamente quando boa parte dos casos de violência doméstica ocorre.
Como paliativo, o estado ampliou as chamadas “Salas DDM 24h”, espaços em delegacias comuns conectados por videoconferência a policiais especializadas, que passaram de 62 unidades em 2023 para 235 em 2026. Mas 513 dos 645 municípios paulistas ainda não têm nenhuma DDM.